Museu Tramas Daqui

Enredamentos do passado e do presente no território

As pessoas que criam tramas diversas na Praia do Sono têm como objetivo o cultivo do saber que entrelaça manejo florestal sustentável, técnicas de uso do material e memórias sobre a utilização dos objetos. O tipiti ou tapiti, por exemplo, diz respeito ao passado da comunidade, quando a base da alimentação era peixe e farinha. A produção de farinha envolvia o plantio de roça e a fabricação de subprodutos da mandioca. O tipiti era utilizado para prensagem da mandioca ralada.

As casas de farinha não estão mais presentes no território, mas a produção do cesto cilíndrico em questão foi proposta pelos moradores para representar a comunidade no Tramas Daqui.

A produção de tipitis e outros objetos – balaios, samburás, luminárias, redes, cestas e leques – não é voltada para o comércio , uma vez que a comunidade tem receio desse tipo de destinação acelerar a degradação ambiental. Além disso, a baixa valorização dos produtos torna o trabalho em outras empreitadas mais atrativo em termos financeiros.

Desse modo, os criadores do Sono preferem produzir para presentear; para lembrar e ensinar os modos de fazer praticados por antepassados; para cultivar relações com a vegetação e outros elementos do território; para uso decorativo próprio.

Celino aprendeu a criar ao desfazer um tipiti produzido por Sr. José Rosa, tratado por ele como “professor”. O aprendizado de outros detalhes e técnicas veio com a prática; portanto, os saberes em relação ao tempo certo de coleta da taquara; sobre qual mão utilizar para moldar cada tipo de peça e outras lidas que envolvem as tramas são apreendidos no dia-a-dia de trabalho.

Eu via meu vô fazendo, pegava as sobras de material e ficava tentando. Entao, foi vendo eles fazendo, mas sem usar o material principal deles, que era trabalhoso para ir no mato pegar. Ai primeiro pegava o que eles deixavam, mas depois passei a ir no mato com eles para pegar, aí comecei a aprender, a achar a timpubepa que estava boa para usar.
Edvaldo dos Santos Araújo
barqueiro e artesão

Almerindo cria desde criança e enreda sua vivência de pescador nas peças. Assim, a produção de redes integra sua produção e inspira a confecção de outros objetos. Ele inclusive tem vontade de reaprender a fazer o covo, um cesto que funciona como armadilha de pesca.

“Nem sempre precisa ser ensinado ou eu ver alguém fazer. Se eu olhar eu já sei como fazer, vejo [como é] o começo do fundo e já sei mais ou menos como fazer. ‘e claro que as vezes eu vou fazer, desmanchar, as vezes faz uma trança diferente da outra, desmancha, faz de novo, mas dá certo.”
Almerindo dos Santos Albino
pescador e artesão

Flávio, conhecido como Binho, tem como referências seu avô João, Norvino e Joninho da Praia do Sono, além de sr. Francino, da comunidade costeira do Cairuçu das Pedras, de quem ganhou um samburá de presente. Seu aprendizado se deu no principalmente no contexto familiar. Interessado em diversos tipos de trabalhos manuais, além das obras com tramas de cipó, Binho realiza também esculturas em madeira. Em função da sua preocupação constante com a retirada de matéria prima da mata atende apenas sob encomenda.

“Eu sei por causa dos nossos antepassados. Meu bisavô fazia, meu avô fazia. E aprendi olhando também. [...] Isso é prática, quanto mais você faz, mais vai aperfeiçoar e vai aprender mais.”
Flavio da Conceição, Binho
Artesão

OS DESAFIOS

A Comunidade da Praia do Sono integra a Reserva Ecológica Estadual da Juatinga. Seus moradores e moradoras são historicamente constrangidos pela especulação imobiliária e vivenciam o desafio cotidiano de receber turistas e realizar atividade pesqueira sem promover a degradação ambiental. Nesse contexto, a produção de cestaria não possui protagonismo em termos de geração de renda, mas sim de manutenção de laços entre as pessoas, o ambiente e sua ancestralidade.

Rafaela, articuladora local, explicitou a necessidade de os turistas terem ciência dos processos que envolvem a produção das obras.

“É importante o turista saber o que é o cesto. Quem fez? Como aprendeu? Qual é o processo de luta do lugar? O Sono tem um processo histórico de luta pela terra.”
Rafaela Albino
conhecida como Fafinha

Almerindo contou que não encontra mais a taboa, material que utilizava para confeccionar esteira. Como a retirada predatória pode levar a escassez total de certos materiais, os criadores são bastante cuidadosos em alternar os locais de extração. A busca por matéria prima e’ especialmente desafiadora para os mais velhos, uma vez que exige deslocamento pela mata e outras formas de esforço físico.

Materiais mais utilizados:

*Para mais informações sobre os materiais, incluindo variações de suas denominações e utilizações, consultar a listagem disponibilizada em REFERÊNCIAS.

As memórias e demais informações sobre a produção de cestaria na Comunidade Praia do Sono foram produzidas, em 2022, em colaboração com:

  • Almerindo dos Santos Albino;

  • Flavio da Conceição (Binho);

  • Edvaldo dos Santos Araújo;

  • Juscelino dos Santos Araújo (Celino);
  • Lira de Souza Araújo;
  • Rafaela Albino (Fafinha);
  • Vagner Coelho Reis da Conceição.

Também houve consulta a material bibliográfico que está listado na aba Referências.

Contatos no Território

Rafaela Albino (24) 99849-5463

Edvaldo (24) 99882-5742

Binho (21) 99377-1590

Vagner (24) 98165-5654

Almerindo (24) 99882-5742